*Por Mary*: Olha eu!
Este livro chamou minha atenção
por muitos e diversos motivos, tendo me superado absolutamente todas as
expectativas. Claro que a obra esteve longe do que pensei que fosse, mas por
excelentes razões – conforme vocês irão entender mais à frente.
O currículo da minha chará Mary é de cair o queixo: ex-professora titular de História da USP e PUC-Rio, pós-doutora, mais de 40 livros publicados, premiações literárias nacionais e internacionais são apenas parte dos diversos feitos dessa autora incrível.
Ficaram curiosos para saber mais sobre Beije-me Onde o Sol Não Alcança? Então sigam em frente!
E uma das coisas que mais me
deixou encantada foi poder jogar o nome dos personagens e lugares no Google e
encontrá-los. São todos personagens reais. Por exemplo, pesquisei “Fazenda Bela
Aliança” e olha só o que apareceu:
O Conde Maurice Haritoff foi um
aristocrata russo que chegou ao Brasil em meados de 1864 com grandes expectativas
de enriquecimento, casando-se com uma herdeira de família cafeicultora abastada
para, assim, tornar-se fazendeiro, exportador e dono de muitos escravos. A
escolhida foi Ana Clara Breves, Nicota, neta do Barão de Piraí, herdeira de
terras que iam de Piraí a Vassouras. Com seu dote, veio a Fazenda Bela Aliança
e alguns outros sítios, integrantes do Vale do Café, que, até então, como
diria a minha amiga Alice “bombava naquela época por causa do café” vivia
seu apogeu.
Aqui não há liberdades. Os pais ou seus substitutos discutem as futuras alianças em segredo. E uma vez passado o ar gélido das negociações, a moça é avisada. Ou melhor, cai o veredicto sem discussões. Ela é convencida de que a promessa do amor surgirá com o passar dos anos. Não há nada de clandestino ou de cínico nesse tipo de decisão prática. Todos precisam ter garantia de um seguro financeiro. Trata-se de uma fusão de fundos, não de corações.
Surge nesse quadro aparentemente
simples a figura de Regina Angelorum, ex-escrava, descendente de negros e
índios, dotada de uma beleza exótica capaz de despertar muitas paixões e que
encanta o Conde Russo. Forma-se, então, um triângulo amoroso incrivelmente
original e tocante, em um cenário real e impressionantemente detalhado que vai
te arrebatar do início ao fim.
Sempre em primeira pessoa, Mary
Del Priore utiliza cartas e escritos em diários pessoais – com trechos por
vezes originais, extraídos de documentos autênticos – para narrar a trama do
Conde Russo casado com a Baronesa do Café, mas apaixonado por uma ex-escrava,
filha da casa.
Não costumo comentar capa, layout
e essas coisas, mas é IM-POS-SÍ-VEL não falar dessa edição linda, cheia de
detalhes. Tudo parece pensado minuciosamente para casar com a história, o
contexto e a ambientação. Sem dúvida, a equipe de arte da Editora Planeta merece ser aplaudida de pé pela demonstração de
cuidado com suas publicações. Acabei me arriscando em um vídeo rapidinho para
tentar mostrar a vocês a riqueza de minúcias desse livro:
O vocabulário segue o formalismo da época, com adaptações. Eu, que
tenho um fraco por clássicos nacionais, me vi reportada a Alencar e Machado –
meus prediletos! – em seu modo polido de narrar fatos e descrever as
ambientações. Talvez para quem não tem experiência com esse tipo de literatura
sinta um pouco de dificuldade em compreender alguns termos. Creio, todavia, que
Beije-me Onde o Sol Não Alcança seja
uma excelente oportunidade de enriquecimento do vocabulário. Vale a pena. Leia
com um dicionário do lado, se for preciso.
E por falar em reporte a clássicos, há muito tempo eu não via livros
literários com notas finais e referências bibliográficas. Muito além de
entretenimento, este livro garante um imenso aprendizado histórico.
Extremamente didática, a minha chará
se vale de um aprofundamento científico que só mesmo uma pós-doutora em
História poderia nos fornecer.
Ontem, enquanto Luís César apresentava Vera à família, tentei caminhar pelo que chamam aqui de “centro”. Fui recepcionado por uma multidão de pretos e mulatos que, num vozerio ensurdecedor, oferecem seus serviços. Eles têm um aspecto embrutecido. Soube que, há pouco mais de vinte anos, o Rio ainda tinha um mercado onde os africanos eram expostos como carne humana. Hoje são vendidos em leilões domésticos, anunciados nos jornais. Espétaculo revoltante, sem dúvida, mas que me fez refletir sobre a miséria que vi em nosso imenso império. [...]
Mas não se precipite em concluir que se trata de um livro meramente
didático. Calma aí, companheiro! A primorosidade desta obra vai muito além
disso. Estamos falando de uma trama completamente pautada em pessoas reais,
oriunda de profundas pesquisas em documentos históricos da época. O didatismo –
mesmo que riquíssimo! – é secundário, apesar de roubar a cena em muitos
momentos.
Contextualizada à trama, assistimos a diversos acontecimentos que
agitaram o Império Brasileiro na segunda metade do Séc. XIX, tais como:
movimentos abolicionistas, chegada de imigrantes italianos e alemães,
passivismo político, corrupção legislativa (que nem nos é uma questão tão
estranha assim ainda nos dias de hoje, convenhamos), alternância parlamentar,
hipocrisia social e o auge produtivo dos cafezais, bem como seu consequente
declínio. Além disso, a autora traça um panorama bastante fiel aos costumes de
época, desde os casamentos arranjados até os cortejos fúnebres.
Quando sair meu caixão num coche de cavalos com plumas escuras na cabeça, os criados irão apagar os rastros da morte. Minha camisola e roupa de cama serão doadas ou queimadas. A casa será varrida com especial cuidado de empurrar a poeira pela porta da frente, que ficará semicerrada, impedindo o retorno de minha alma. No quintal, jogarão fora a água do último banho e enterrarão meu cabelo e unhas cortadas em algum lugar previamente escolhido por tia Maria Gata. As pistas serão embaralhadas para que eu não volte. Para que eu veja que não há mais lugar para mim. Depois que eu fechar os olhos, meu nome deixará de ser pronunciado. [...]
A sinopse menciona a existência de um triângulo amoroso que eu,
particularmente, senti dificuldade de encontrar. Quero dizer, o triângulo está
bem claro. Aliás, mais perceptível, impossível. Mas o amor... fiquei
procurando. Refleti ao fim, no entanto, que Beije-me
Onde o Sol Não Alcança tem um viés muito forte do realismo/naturalismo, me
lembrando muito Aluísio Azevedo, de modo que aqui, caro leitor, você não
encontrará um amor byroniano, mas sim uma filhadaputagem
à Eça de Queiroz.
Sendo assim, se você quer um daqueles romances para suspirar, procure
outra coisa para ler. Não obstante, se você deseja um romance histórico real,
extremamente bem escrito, bem fundamentado, riquíssimo em detalhes e que traça
um quadro impressionante do Brasil Império, não hesite em ler Beije-me Onde o Sol Não Alcança.
Sei... Maurice me trai. O amor acabou, mas o casamento, não. Devo achar que ser fiel é ter o uso exclusivo do corpo do outro? Talvez. Mas isso não é essencial. Essencial é saber por que somos um casal. É ter fidelidade a uma história. Podemos esquecer um ao outro sem sermos infiéis. E sermos infiéis, sem nos esquecer. Todo o amor não é fiel, mas a fidelidade é amorosa. Sou fiel a Maurice.
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Gostei do livro e me interessei bastante por ele, e o fato
ResponderExcluirde ter personagens e lugares da realidade deixam a história ainda
mais interessante. Achei que fosse um livro mais comparado com a literatura, por narrar pessoas e fatos reais, mas me surpreendi ao saber que é mais do que isso, estou muito curiosa para ler.
Obrigada pela resenha! beijos
emiliano.fernanda@yahoo.com.br
Achei de muito bom gosto só não tenho como comprar fico muito triste pos gosto muito de ler leio desde os três anos de idade estou com 61 anos e continuo lendo adoro
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